Recomendação:
Livro : “O Vendedor de Sonhos”
Autor : Professor Doutor Augusto Cury
Recomendo a leitura deste romance pelo aporte que a todos trás, consumidores de ideias que sofrendo ou não de orgulho doentio, estejam prontos a melhorar o seu metabolismo cerebral, fazendo uma leitura de si mesmos sem paixões nem tendências e no profundo reconhecimento humild e da sua ignorância.
Jorge Rodrigues Simão
Algumas passagens introdutórias:
“Enquanto o escrevia, fui bombardeado com inumeráveis questionamentos, sorri muito e ao mesmo tempo repensei nossas loucuras, pelo menos as minhas. Este romance passeia pelos vales do drama e da sátira, pela tragédia dos que perderam e pela ingenuidade dos que fizeram da existência o picadeiro de um circo.
O personagem principal é dotado de uma ousadia sem precedente. Ele esconde muitos segredos. Nada, ninguém consegue controlar seus gestos e palavras, a não ser sua própria consciência. Sai bradando aos quatro ventos que as sociedades modernas se tornaram um grande manicômio global, onde o normal é ser ansioso, estressado, e o anormal é ser saudável, tranqüilo, sereno. Ele instiga a mente de todos os que passam por ele, seja nas ruas, nas empresas, nos shoppings, nas escolas, com o método socrático. Torpedeia as pessoas com inumeráveis perguntas.
Sonho que este livro possa ser lido não apenas pelos adultos, mas também pelos jovens, pois penso que muitos deles estão se tornando servos passivos do sistema social. Não são arrebatados pelos sonhos e pelas aventuras. Tornaram-se, apesar das exceções, consumidores de produtos e serviços e não de idéias. Entretanto, consciente ou inconscientemente, todos querem uma vida regada a emoções borbulhantes, até bebês quando se arriscam a sair do berço. Mas onde encontrá-las em abundância? Em que espaço da sociedade tais emoções se encontram? Alguns pagam muito dinheiro para consegui-las, mas vivem angustiados. Outros se desesperam em busca de fama e reputação, mas morrem entediados. Outros ainda escalam íngremes montanhas para ter algumas doses de aventura, mas elas se dissipam no calor do dia seguinte. Na contramão da massacrante rotina social estão os personagens deste romance. Eles viverão altas doses de adrenalina diariamente. Entretanto, o “negócio” de vender sonhos tem um alto preço. Por isso, riscos e vendavais os acompanharão.
Mais um ser humano queria abreviar a já brevíssima existência. Mais uma pessoa planejava desistir de viver. Era um tempo saturado de tristeza. Morriam mais pessoas interrompendo a própria vida do que nas guerras e nos homicídios. Os números deixavam atônitos os que refletiam sobre eles. A experiência do prazer havia se tornado larga como um oceano, mas tão rasa quanto um espelho d’água. Muitos privilegiados financeira e intelectualmente viviam vazios, entediados, ilhados em seu mundo. O sistema social assolava não apenas os miseráveis, mas também os abastados.
Alguns observadores mordiam os dedos em grande tensão. Outros nem piscavam os olhos, para não perder detalhes da cena — o ser humano detesta a dor, mas tem uma fortíssima atração por ela; rejeita os acidentes, as mazelas e misérias, mas eles seduzem sua retina. O desfecho daquele ato traria angústia e insônia aos espectadores, mas eles resistiam a abandonar a cena de terror. Em contraste com a platéia ansiosa, os motoristas parados no trânsito estavam impacientes, buzinavam sem parar. Alguns colocavam a cabeça janela afora e vociferavam: ”Pula logo e acaba com esse show!”. (Os falsos amigos e conhecidos agem da mesma forma e jubilam quando tudo fazem para liquidar a mente de quem dizem ser amigo. Pior se torna quando é a família em nome de um falso Deus que fala contrariando o que ontem confirmou como verdade.)
Em vez de se intimidar, o estranho homem perdeu a paciência e censurou seu interlocutor perturbado:
— Quem disse que você é uma pessoa frágil ou um pobre deprimido que esgotou o prazer de viver? Ou um desprivilegiado… um frustrado? Ou um moribundo que não consegue carregar o peso das suas perdas? Para mim, você não é nada disso. Para mim, você é apenas um homem orgulhoso, preso na sua gaiola emocional, alienado de misérias maiores que a sua. (Reside no orgulho e mentira patológica a diferença entre a sanidade e a insanidade. Ninguém pode-se curar se não reconhecer que está doente e deixar-se ajudar. Deus não opera milagres se apesar de choros e louvores clantestinos não abrir o seu coração e deixar que Ele opere. O psquiatra e Deus são contra o “show do convencimento”).
Ele sentia-se alvejado no peito, sem ar. O intruso acertara na mosca. Seus pensamentos penetraram como um raio nos recônditos da sua psique. Naquele momento, o triste homem pensou no pai, que lhe esmagara a infância, lhe causara muita dor. Seu pai emocionalmente distante, alienado, enclausurado em si mesmo. Mas o suicida não tocava nesse assunto com ninguém; era-lhe extremamente difícil lidar com as cicatrizes do passado. Atingido por essas recordações angustiantes, disse em tom mais ameno, com lágrimas nos olhos: ( Não culpe os outros do seu passado. Perdoe o passado da sua infância e humildemente reconheça os erros cometidos até ao presente. A escolha sempre será de cada um.)
—Cale-se. Não fale mais nada. Deixe-me morrer em paz. Ao perceber que havia tocado numa ferida profunda, o homem que o questionava diminuiu também o tom de voz.
— Eu respeito a sua dor e não posso elaborar nenhuma tese sobre ela. Sua dor é única, e é a única que você consegue realmente sentir. Ela te pertence e a mais ninguém.
O maltrapilho, então, lhe deu o golpe derradeiro:
— Você já se sentenciou? Você sabia que o suicídio é a condenação mais injusta? Porque quem se mata executa contra si mesmo uma sentença fatal sem ao menos se dar o direito de defesa. Por que se auto-condena sem se defender? Por que não se dá o direito de argumentar com seus fantasmas, encarar suas perdas e lutar contra suas idéias pessimistas? É mais fácil dizer que não vale a pena viver… Você é realmente injusto consigo mesmo!
O estranho demonstrava saber com maestria que os que tiram a própria vida, ainda que planejem sua morte, não têm consciência das dimensões do fim da existência. Sabia que, se vissem o desespero dos íntimos e as conseqüências indecifráveis do suicídio, voltariam atrás e se defenderiam. Sabia que nenhuma carta ou bilhete poderia ser atestado de defesa. O homem do topo do Edifício San Pablo havia deixado uma mensagem para seu único filho, tentando explicar o inexplicável.(Tudo o que fizer no descontrolo do seu metabolismo cerebral terá efeitos devastadores no futuro dos seus filhos pela negativa. Será essa a única e possível herança que lhe irá deixar ou pretende reconhecer que necessita de ajuda e deixar um legado de amor, compreensão, verdade, honestidade e sinceridade? A escolha será sua…)
Deficiências metabólicas cerebrais, bem como fora encorajado a superar seus conflitos e ver seus problemas..
Parece que sabia que sem inquietação não há questionamento, e que sem questionamento não se encontram alternativas, não se abre o leque de possibilidades. (Abriu esse leque de possibilidades sem paixões?)
Tentando desdenhar do homem que o interpelava, o suicida retrucou com certo sarcasmo:
— Eu? Quem eu sou? Sou um homem que em poucos momentos deixará de existir. E já não saberei quem sou e o que fui.
— Pois eu sou diferente de você. Porque você parou de procurar a si mesmo. Tornou-se um deus. Enquanto eu diariamente me pergunto: ”Quem sou?”. – E mostrando astúcia, fez outra pergunta: — E quer saber qual é a resposta que encontrei?
O suicida, constrangido, meneou a cabeça, dizendo que sim. O forasteiro prosseguiu:
— Eu lhe respondo se primeiramente me responder. De que fonte filosófica, religiosa ou científica você bebeu para defender a tese de que a morte é o fim da existência? Somos átomos vivos que se desintegram para nunca mais resgatar a sua estrutura? Somos apenas um cérebro organizado ou temos uma psique que coexiste com o cérebro e transcende seus limites? Que mortal o sabe? Você sabe? Que religioso pode defender seu pensamento se não usar o elemento da fé? Que neurocientista pode defender seus argumentos se não usar o fenômeno da especulação? Que ateu ou agnóstico pode defender suas idéias sem margem de insegurança e sem distorções?
O suicida ficou atordoado com essa explosão de perguntas. Era um ateu, mas descobriu que seu ateísmo era uma fonte de especulação. Como muitos ”normais”, dissertava teses sobre esses fenômenos com uma segurança insustentável, sem nunca debatê-las isentas de paixões e tendências.
— Somos dois ignorantes. A diferença entre nós é que eu reconheço que sou.”
Mais se seguirão na oportunidade das mesmas.
Tipo: Romance
Editora: Academia de Inteligência
