E Célia só não construiu, assim, um “Frankeinstein” musical por dois motivos; porque está a cantar muito bem, e porque conseguiu ter arranjos coerentes entre as faixas. Que Célia é uma grande cantora, não é novidade. Quem conhece os seus discos da década de 1970 sabe bem do que é capaz. E quem tem ouvido os seus trabalhos mais recentes sabe também do quanto a sua voz envelheceu bem. Célia continua com a voz volumosa, ampla, potente, mas sem deixar que a rouquidão tomasse conta de tudo, conseguindo, quando quer, por outro lado, dar um tom menos agressivo e mais suave ao seu cantar.
As notas altas continuam a marcar presença, mas os tons médios e graves estão muito bem explorados. Enfim, uma senhora cantora! Quanto aos arranjos do disco, são os responsáveis pela identidade entre as faixas. Um contrabaixo que sobressai e um piano que tende ao discreto, dão ao disco um tom inevitavelmente “bluesy”, que tira Célia da mesmice reinante na MPB e a faz destacar-se como cantora. Mas o charme e as subtilezas do disco ficam por conta do instrumental. Porque, tendo a base piano-e-baixo quase sempre mantida, sobra espaço para as intervenções instrumentais tão agradáveis quanto criativas. Como, por exemplo, a de um conjunto de cordas bem adocicadas, de uma harpa surpreendente, de um trompete jazz, de um clarinete “a la” saudade, ou mesmo de um acordeão ou de um bandoneón (que hoje até se fazem batidos, tanto tem sido o uso).
No que se refere ao repertório, o disco de Célia também marca pontos porque:
1) Resgata composições realmente esquecidas ou inesperadas – como “Êxtase” (de Guilherme Arantes – que tem sido bem regravado ultimamente), “Cantiga de quem está só” (de Evaldo Gouveia e Jair Amorim) e “Não se vá” (o standart “kitsch”, interpretado originalmente pela dupla Jane e Herondy).
2) Vale-se de clássicos não tão óbvios, resgatando uma memória afectiva interessante, sem deixar de surpreender, casos de “Apelo” (de Vinicius de Moraes e Baden Powell), num arranjo totalmente diferente daqueles que se costuma ouvir, e de “Meu benzinho”, linda composição da sempre desconcertante Angela Ro Ro.
3) Consegue dialogar com compositores de hoje, tendo gravado obras de Ana Carolina com Antonio Villeroy (a pungente “Aqui”, muito bem defendida pelos seus dois autores), Zélia Duncan com Hamilton de Holanda (a mais linda faixa do disco, “Desejo de mulher”, mostrando que as parcerias de Zélia só têm trazido benefício) e Zeca Baleiro (numa versão bem pesada de “Cigarro”). Dizer que o repertório inteiro do disco é bom seria um exagero. Há altos, e baixos, é claro.
Por exemplo, sem embargo de “Sonhos” (de Peninha) ser uma canção até interessante, com o seu compositor vêm sendo regravados há algum tempo, Célia não consegue adicionar nada na sua interpretação. A cantora poderia ter “descido” ainda mais fundo no baú da MPB e ter pescado algo realmente surpreendente.
O estilo e a sonoridade sofisticados do disco permitiriam à artista trazer algo verdadeiramente “trash” ao universo da MPB, causando um impacto ainda maior e dando mais sentido ainda ao título do disco. Mas, no geral, Célia vem com um trabalho que merece respeito. Porque envolve a cantora numa aura de capricho e refinamento (muito por conta da belíssima capa) que fazia jus há tempos. Porque é ousado em certa medida, revela um lado oculto da cantora (o da sofisticação que não busca o caminho fácil), passeia no tempo e não soa banal. Não é para se ouvir e sair a cantar. É para se ouvir só, calmamente, prestando atenção a cada detalhe.
Como um vinho antigo
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